Passamos nossa noite em Bragança em um bom hotel familiar. Um quarto grande, com 4 camas acho. A cidade em si não nos atraiu nem um pouco. Fora a parte do castelo e o burgo (a antiga cidade medieval que cresceu no espaço entre o castelo e as muralhas externas que o circundavam) o local não tinha muito charme.
Rumamos para o castelo, na parte alta da cidade, em meio as ruas apertadas. Mal sabíamos que quando passássemos pelas muralhas nos depararíamos com um ruazinha estreita que tivemos pegar com o carro pra chegar até a praça central do burgo, onde se situa o castelo. Passamos debaixo os arcos que aparecem no fundo da foto e tudo! Esse aperto depois se tornou comum ao longo da viagem, até pior!
Vista a partir dos portões de entrada da cidade medieval.
Praça central, já dentro do burgo com a torre principal do castelo (o lugar é hj um museu militar q conta as glorias de Portugal).
Das muralhas do castelo da pra ter uma boa ideia do desenvolvimento urbano da cidade. Entre a muralha a partir da qual tiramos a foto e a muralha que vemos correndo à meia distância, se encontra o que chamei de burgo, a cidade que cresceu durante o perímetro medieval. Ao fundo está a Bragança moderna que falei não ter muito charme.
Se continuamos no mesmo ponto da muralha e damos uma volta de 180 graus a paisagem muda totalmente e vemos que o mundo rural não está longe da cidade.

Pra falar a verdade, mesmo dentro da área do burgo a gente ainda encontra boas parcelas de terra prontas pro cultivo.O pessoal todo que mora nessas casas mora dentro das muralhas da cidade medieval!!!

Como não poderia faltar a cidade tb tem seu pelourinho. Mas esse é especial pois esta assentado em uma pedra em formato de javali que se acredita ser muito, muito antiga.

Bragança foi nosso portão de passagem para o Portugal profundo, a parte que mais gostamos da viagem. A parti dali começamos a rumar para o Sul, nunca nos distanciando muito da fronteira espanhola (em alguns trechos parecia ter mais rádio espanhola que portuguesa!) Nosso primeiro destino foi uma cidadezinha chamada Vila Nova de Foz Côa. No caminho tivemos um gostinho da beleza que é o Alto Vale do Douro com suas infindáveis vinhas em terraços a beira do riozão! Realmente muito bonito!! Uma pena que não deu para explorarmos mais esse canto.
Nossa preocupação era chegar a tempo na cidade e procurar o museu pré-histórico antes que ele fechasse para que pudéssemos agendar uma visita ao parque que apresenta algumas das gravuras rupestres mais antigas da humanidade.
Vou dar uma resumida breve na história desse parque, que foi sem dúvida um dos pontos altos de toda a viagem. Algo realmente especial que é difícil resumir em palavras e que com certeza a Camila saberá falar melhor que eu (de todo modo fica aqui um site:
http://www.igespar.pt/pt/monuments/53/).
Esse Parque Arqueológico se tornou Patrimônio da Humanidade em 1998, apenas 2 anos após sua criação (e 3 de descoberta das gravuras pela população portuguesa), um dos processos mais rapidos de nomeação e reconhecimento do valor histórico desse local pela UNESCO. A urgência se explica tb pelo contexto político. Mesmo se a população da região já sabia há décadas (senao há séculos) que a região abrigava uma grande quantidade de gravuras rupestres, o governo fez vista grossa e autorizou a construção de uma barragem, que inevitavelmente ira alagar e cobrir uma enorme parte desse patrimônio. Acontece que a empresa responsável pela obra e o governo não conseguiram esconder a notícia que logo se alastrou pelo país, despertando o interesse da população em proteger tão importante "sinal sensível da nossa presença no universo" (como diz a frase de G. Bataille que hj aparece nos postais vendidos na região - Pai, comprei um desse pra vc). O movimento de preservação foi tão forte e obteve um tão grande apoio do povo português que as autoridades não viram outra opção que não fosse o embrago das obras. O manifestação da população era forte pois partia de dois princípios simples e elementares. O primeiro: inegavelmente as gravuras eram um testemunho único da aurora da humanidade, portanto de valor inestimável; o segundo tinha a força de uma singela evidência, como dizia uma das frases de ordem da época: "As gravuras não sabem nadar!" (frase que, nesse contexto, é uma síntese do espírito poético português).
Assim, em tempo recorde o parque se estruturou e passou a receber visitantes. No ano passado abriram um museu moderno simplesmente estupendo, que absurdamente não nos pareceu tão visitado quando deveria. Claro a crise econômica atual não traz bons ventos.... A guia que nos levou para conhecer as gravuras disse que o parque tinha acabado de ser vendido para a iniciativa privada e que os cortes de verba e de pessoal já batem a porta..... (nesse museu temos uma outra historia sobre a maravilhosa gentileza portuguesa em contexto de crise, mas deixo pra Camila contar, uma vez que será ela a postar sobre nossa visita ao parque).
No aguardo da postagem das fotos e dos comentarios da Camila sobre as gravuras e a organização do museu, deixo aqui apenas umas fotos pra ilustrar o clima desse lugar único.
Calçadão central da cidade, por isso mais moderno. Uma cidade pequena, e pacata com senhoras nas portas das casas tricotando e vendo o movimento da rua.

Entrada do museu que imita uma fenda em paredes rochosas pra dar a impressão de que o museu é uma caverna (exemplo da eficacia e da beleza da linguagem museológica criada pra esse museu.

Vista da parte dos fundos do museu com o rio Côa e onde da pra se ver as vinhas em terraços que dominam toda a região. Se não me engano o museu tem um restaurante com essa vista!

PS.: SIm essa postagem esta mais detalhada que a anterior pq a Camila me me cobrou mais fotos e mais detalhes.